Presidente do Sindicato dos Médicos de MS, Marcelo Santana Silveira, detalha preocupação com o futuro da carreira
A expansão de cursos de medicina, muitas vezes sem a estrutura adequada, e a atuação de profissionais sem a devida especialização (RQE) representam desafios significativos para a segurança e a qualidade do atendimento médico no Brasil. A análise é do presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul (SINMED-MS), o nefrologista Marcelo Santana Silveira, em entrevista ao Jornal Midiamax neste sábado, 18 de outubro, data que celebra o Dia do Profissional Médico.
Segundo Silveira, o cenário atual preocupa e é resultado de uma “abertura muito grande de cursos de medicina” nos últimos anos, majoritariamente na rede privada. O Conselho Federal de Medicina (CFM) projeta mais de 1,2 milhão de médicos no país até 2035.
O presidente do sindicato aponta que o objetivo inicial de ampliar vagas para levar médicos ao interior do país não foi atingido. “Esses médicos permaneceram, os que se formaram, nos grandes centros, não houve a interiorização da medicina no país e esse problema que era a principal razão pela pela abertura de novos cursos, ele não se concretizou”, afirmou.
A situação é agravada pela qualidade questionável de muitas instituições, que, segundo Silveira, operam amparadas por decisões judiciais e sem a estrutura necessária, como hospitais próprios ou corpo docente qualificado.
“Eu sempre faço uma analogia com formação de piloto, piloto de avião. Quando você forma o médico mal qualificado, esse médico pode trazer não só o desfecho fatal na vida dum paciente, mas pode também trazer sequela”, compara.
Saturação e o “novo CRM”
Silveira relatou ao Midiamax que a expansão de vagas, aliada ao alto custo das mensalidades privadas, tem gerado um excesso de profissionais dispostos a aceitar condições precárias de trabalho, impactando a remuneração pela lei da oferta e procura.
Ele revela que em grupos de oferta de plantão, “não se fica um segundo sem plantonista”.
“Médicos que terminaram faculdades com dívidas muito grandes… vão estar dispostos a trabalhar em condições… em qualquer condição e com qualquer salário”, disse Silveira.
Esse contexto acentua outra preocupação: a atuação de profissionais sem o Registro de Qualificação de Especialista (RQE). O RQE é o documento que atesta a conclusão de uma residência médica ou a aprovação em prova de título da Associação Médica Brasileira (AMB).
Silveira alerta que a população deve verificar o RQE do profissional no site do Conselho Regional de Medicina (CRM) para garantir um atendimento seguro, tratando o registro como essencial para a comprovação da especialidade.
Ele critica profissionais que se apresentam como especialistas tendo realizado apenas cursos de pós-graduação de curta duração, que não se comparam à residência médica, definida por ele como uma “segunda formação” com milhares de horas práticas.
“Como que você vai comparar uma pessoa que tem 200 horas de formação com uma pessoa que tem 5 mil horas de formação, 4 mil horas de formação?”, questionou.
O presidente do Sindmed-MS classifica como infração ética a autopromoção sem a devida titulação.
“Qualquer profissional que se identifique como especialista e não possua o RQE da especialidade, ele está infringindo uma ética, uma norma ética, que inclusive esse profissional pode ser processado e sofrer sanções pelo Conselheiro Regional de Medicina”, destacou.
Formação interna e externa
A discussão sobre a qualidade se estende aos médicos formados no exterior, principalmente em países vizinhos, que tentam validar seus diplomas no Brasil. Silveira aponta que o país não possui controle sobre a qualidade dessas formações estrangeiras e que o exame de revalidação (Revalida) é falho.
“A maior parte dos profissionais de fora, eles não passam nessa prova”, destacou, indicando que o índice de reprovação levanta dúvidas sobre a competência dos profissionais formados no exterior.
Questionado sobre a criação de um exame nacional para médicos formados no Brasil, similar ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Silveira é crítico. Ele avalia que a necessidade de um teste final expõe uma falha no processo de autorização e fiscalização das universidades.
“A partir do momento que você cria uma prova pra você avaliar quem já formou, aí você já chegou numa situação que você falhou lá atrás. Você não teve a competência como país de fazer uma avaliação prévia das faculdades para formar”, pontuou.
Ética nas redes sociais
A pressão do mercado saturado também reverbera nas redes sociais. O médico identifica um aumento de profissionais que utilizam as plataformas para autopromoção, muitas vezes cruzando limites éticos.
Segundo ele, o CRM tem atuado na fiscalização de condutas como a oferta de “curas milagrosas”, tratamentos sem comprovação e a banalização da imagem profissional. “Você vê até… situações vexatórias pra médicos, com dancinhas”, comentou Silveira.
Ele destaca que a onda de ‘médicos influencers’ se deve à necessidade de alcançar fama e lucro, em uma profissão que passa diretamente pela importância da vocação como balizador do compromisso social que se exige.
Entretanto, apesar dos desafios, Marcelo Santana mantém otimismo em relação ao futuro, prevendo uma transição que exigirá um filtro profissional. Ele acredita que a desvalorização remuneratória, decorrente da saturação, fará com que permaneçam na área aqueles com verdadeira aptidão.
“Eu acredito numa medicina que no futuro vai ser uma medicina formada por profissionais com vocação”, concluiu.
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Fonte: Midiamax